Miragem inquieta
Eterna descoberta
Vieste luzir na solidão dos mares
Precipício de ilusão modesta
Que a verdade desonesta
Te veio iludir em pleno desespero
E te engolir nesse mar de pesadelo
Que te ensombra a rubra colina
Manchada de negro
Espelhada nos céus
Vestida de flor e de medo
Precipitação na queda
Dilúvio na certa
Demoras de ventos sem conta
Que invadem e levam
Perfumes e cores
Dores e rumores
E putrefacta deixam a ilha
Que a maré afoga
E a vontade de morrer logo acorda
Solidão de viver que sempre vive
E que nunca com o vento descola
Ilusão demorada
Viagem delongada
À mercê de marés desgovernadas
Que as estrelas se sentem beijadas
Pela mão pesada e sombria
Assobio prolongado
Dança vadia de um vento enfurecido
Que toma de assombro
A quem com ele se cruza
A quem contra ele se ousa
Beirar de uma luta desmedida
E sem vencedor
Perdido o navio que pelo mar segue
Oceano picotado pela fúria tempestiva
Que brancas espumas de cólera
Vomitam sem soluçar
E em bravos suspiros de medo
Fazem gritar
E ao vento bradam sem pensar
Ensombreiam a ilha negra
Calhau deserguido na tona do mar
Que vagueia sem sentido
E tropeça no luar
Barca flutuante e sem rumo
Que nuvens sorvem no seu manto
Infinito pranto
Que sobre nós desaba
É aqui que o mar começa
E o céu acaba.

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